sábado, 28 de abril de 2012

O Sabor da Torta

Acho que o maior problema dos relacionamentos contemporâneos é da ordem gastronômica. Da forma como eu vejo - e talvez esteja influenciada pela fome da madrugada - as pessoas são como grandes tortas de sabores variados. Algumas a gente bate o olho e já sabe que vai gostar, às vezes só pelo cheiro. Outras vezes, a gente segue a intuição e só depois descobre que é alérgico a nozes, ou pior, que a torta em questão curte sertanejo universitário.
Mas, ao contrário do que você possa estar pensando, o problema dos relacionamentos contemporâneos não reside no fato de que somos tortas gigantes. Tortas são bonitas e gostosas, na grande maioria das vezes - exceto nas festas de aniversário em escritórios no centro da cidade. A tristeza da coisa está na constatação de que estamos vivendo uma época em que queremos afetividade por quilo. Isso significa que, devido a alta oferta de tortas no mercado, ninguém consegue se focar em apenas um sabor.
O que temos hoje é uma porção de tortas sendo vorazmente garfadas e deixadas de lado, aos pedaços, disformes, tristes. Todo mundo quer um pedacinho de torta, uma fatiazinha fina do tipo "estou-de-dieta-não-quero-muito". Tem sempre alguém querendo dar uma mordiscada, uma lambidinha, uma passadinha de dedo marota. O que ninguém quer - ou tem coragem de fazer - é arriscar e levar a torta inteira para casa.
E essa é a grande lástima. Estamos acostumados a tirar lasquinhas de várias sobremesas e levar à balança do restaurante para pesar. É a insustentável leveza da torta mousse de chocolate e do cheesecake de framboesa. Estamos acostumados a ter muitas, muitas opções de comida. E de pessoas. Conheço gente que tem mais de 1.000 amigos no Facebook. Como se alguém fosse fisicamente capaz de ter mil amigos.
E qual é o resultado disso? Tortas garfadas e destroçadas, sem lugar cativo na geladeira de ninguém, vagando por aí, pelas noitadas, pelas festas, tristes, tortas. E, pouco a pouco, elas vão perdendo a doçura. Vão se tornando descrentes, azedas, estragadas pelo ataque dos garfos despretensiosos.
Somos tortas. Claro que somos comidas. Mas o que eu queria mesmo era experimentar a sensação de ser a preferida de alguém. Aquela que é levada dentro do pacote - o pacote completo, com todos os defeitos e qualidades, com todas as garfadas sofridas, com tudo aquilo que faz de mim a torta gigante que eu sou. Estou farta de me pedirem pedacinhos. Quero ser levada por inteiro.

Alguém

Eu sei que deveria ser mais grata por tudo que a vida tem me dado, mas quer saber?
A vida é uma cadela manca e raivosa. E se eu consegui alguma coisa até hoje foi porque tive que brigar muito pra tirar o naco de carne dos dentes dela.
Eu não estou feliz. Mentira. Estar parte do pressuposto de que algum dia eu já estive. E nunca houve esse dia. Pelo menos não um dia inteiro. Talvez algumas poucas horas. Mas como eu já disse, a vida é uma cadela.
Tenho 2 empregos, estou na universidade e estou atulhada de trabalhos da Faculdade até o pescoço e sem absolutamente nenhuma vontade de fazer nenhum. O que eu realmente queria fazer? Me teletransportar para um lugar bem longe, onde as pessoas saem na rua usando chapéu. Sem ser o México, tá? Eu ficaria ridícula de sombrero.
Eu iria a Paris agora, não fosse pelo pequeno inconveniente da falta de dinheiro, de ter 2 empregos e a faculdade em andamento. Mas o descontentamento não vem das coisas que eu tenho.Vem do que eu não tenho...
O problema é esse resquício de crença que eu tenho nessa porcaria de - eu não acredito que vou dizer isso - amor. É um saco ter que admitir, mas eu espero encontrar alguém.
E quem é alguém? Alguém é uma entidade mitológica, que costuma aparecer algumas - poucas - vezes na vida de cada ser humano. Alguém pode estar em qualquer lugar, onde você menos imagina, inclusive aí do seu lado. Mas não adianta procurar muito, porque reza a lenda que alguém só aparece quando você menos espera. As histórias são muitas.
Ouvi dizer que se você gritar "alguém" três vezes na frente do espelho, ele aparece e se casa com a sua melhor amiga. (mentira, a lenda diz que a gente grita pra loira do banheiro três vezes e ela aparece na sua casa)
Mas mesmo sabendo que essa pessoa mitológica não existe, eu me recuso a desapegar do conceito. Porque, apesar daquilo que eu finjo ser na maior parte do tempo, apesar do discurso cínico que eu costumo dar sobre a impossibilidade dos relacionamentos, eu continuo com os dedos cruzados, torcendo pelo dia em que alguém vai aparecer e me provar que eu estava errada.
Tenho 2 empregos, 1 Faculdade em andamento, 1 melhor amiga, outras 2 boas amigas, centenas de pessoas que fingem gostar de mim, outras centenas que me odeiam e não disfarçam. São bons números, eu deveria querer comemorar. Mas a vida é uma cadela. E eu não estou feliz. Porque quando eu fecho os olhos e imagino o futuro, eu vejo a França, vejo chapéus, vejo projetos em andamento e quem sabe algumas horas felizes. Mas também vejo um número solitário que irá me acompanhar ao longo dos meus dias e fins de semana até a minha cama.
Paciência. Talvez alguém seja ocupado demais para aparecer na vida de todos.

domingo, 15 de abril de 2012

O que ela vê

Ela, do jeito que é, preenche todas as suas carências do passado, e vê que ela precisa dela e isso a faz sentir importante, e vê que ela boceja só de pensar na palavra bocejo e que faz parecer que é sempre primavera, de tanto que gosta de flores, e ela vê que ela é tão insegura quanto ela e é humana como todos, vê que ela é livre e poderia estar com qualquer outra pessoa, mas é ao seu lado que está, e vê que ela se preocupa quando ela chega tarde e não se preocupa se ela não diz que a ama de 10 em 10 minutos, e por isso ela a ama mesmo que ninguém entenda.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Nada sei...

Tenho vontade de encher parágrafos e mais parágrafos com pontos de interrogação. É tudo o que eu penso em escrever. Tenho mil perguntas para fazer e parece que quanto mais respostas, mais dúvidas surgem. Quanto mais me conheço, menos sei o que fazer de mim. Quero explodir, mas me contenho, quero me impor, mas me escondo, quero gostar, mas racionalizo.
Onde vou chegar se não me soltar?
Tenho medo de ficar presa nessas linhas.
Tenho medo do que eu escrevo se tornar realidade.

E se eu tiver que ser alguma coisa pra sempre, porque o que está no papel não se apaga mais, e estou escrevendo quase certezas sobre mim o tempo todo?

Ensaio sobre Fernanda (2)

Algumas vezes na vida, você encontra uma amiga especial. Alguém que muda sua vida simplesmente por estar nela.
Alguém que te faz rir até você não poder mais parar.
Alguém que faz você acreditar que realmente tem algo bom no mundo.
Alguém que te convence que lá tem uma porta destrancada só esperando você abri-la.
Isso é uma amizade pra sempre.
Quando você está pra baixo e o mundo parece escuro e vazio, sua amiga pra sempre te põe pra cima e faz com que o mundo escuro e vazio fique bem claro.
Sua amiga pra sempre te ajuda nas horas difíceis, tristes e confusas.
Se você se virar e começar a caminhar, sua amiga pra sempre te segue.
Se você perder seu caminho, ela te guia e te põe no caminho certo.
Sua amiga pra sempre segura sua mão e diz que vai ficar tudo bem.
Sua amiga é pra sempre, e pra sempre não tem fim.

Fernanda e João

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Eu...

Não me sinto bonita na maior parte do tempo. E isso não é uma tentativa desesperada de conseguir uns elogios. Não sou tão carente assim. É que eu realmente tenho razões para me sentir dessa forma.
Antes de mais nada: dê uma boa olhada nessa menina da foto.


Quer dizer, no que a mãe dela estava pensando pela manhã, antes de mandá-la para o maternal? "Filha, não esquece de colocar os óculos, o tênis ortopédico e aquele animal morto no seu cabelo."
E o freak show não para por aí não. Por alguma razão, meus dentes de leite demoraram muito tempo para cair. Tipo - muito tempo. Isso significa que, aos doze anos, enquanto minhas amiguinhas pré-adolescentes davam seus primeiros beijos, eu me encontrava - desculpa, deixa eu respirar fundo - banguela. Fiquei sem meus caninos por um bom tempo, porque além de demorarem a cair, eles também demoraram a crescer.
Você pode achar que isso é o suficiente para aniquilar a auto-estima de alguém, mas nããão. Senta aí e espera o resto. Ainda falta os cabelos crespos extremamente rebeldes, o corte chanel que me deixou parecendo um abajur, e nem vou comentar sobre o excesso de peso. Isso sem contar com os coleguinhas da escola, porque nada grita mais "me sacaneie" do que uma menina gorda e com um bicho morto na cabeleira exótica.
A coisa só foi melhorar depois dos meus dezoito anos, quando eu comecei a ficar mais jeitosinha. Antes disso, fui completamente invisível para os meninos.
Eu só era vista na hora de pedir cola, até porque, algum atributo eu tinha que ter, né? E ser esquisita por dezoito anos tem lá suas vantagens. Você põe a leitura em dia, conhece uma porção de autores, amplia seu leque musical, ouve bandas desconhecidas. Enfim, é ótimo.
Não sei como eu seria hoje se tivesse ido a todas aquelas festinhas iradas. Se tivesse sido objeto de desejo dos garotos do colégio. Se não fosse excluída dos grupinhos legais.
Não sei.
Talvez eu fosse uma pessoa mais bem resolvida, menos encanada com tantas bobagens, menos paranóica, obsessiva e complexada.
Não me sinto bonita na maior parte do tempo. Mas em vez de odiar cada uma das pessoas e dos eventos que contribuíram para isso, eu faço o oposto. Porque se não fosse por eles eu não seria eu. Minhas questões seriam outras e os caminhos teriam me levado a um outro lugar que não este em que me encontro.
E você, provavelmente, nunca teria me conhecido.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

PNL

Deus, Olha, eu queria apenas contar que eu não Te amo. Quer dizer, a gente tem que ter coragem para contar uma coisa dessas, não é? Então, estou te contando. Fui me “tratando” aos poucos e me fazendo não amar Você. Não, não ri porque nunca falei tão sério: eu me tratei. Não era doença, mas é sempre bom prevenir essas coisas que chegam sorrateiramente e quando vemos, puft!, já nos atropelou. Eu não queria ir parar embaixo de um caminhão cheio de Você e de coisas que eu nunca iria conseguir alcançar.
Mal comecei a escrever e Você pode perceber que uso muito o “sempre” e o “nunca”, mas faz parte do meu tratamento, estou tentando radicalizar o meu não amar Você para não ter chances de dar errado. Anulo qualquer possibilidade de futuro e me alimento apenas dessa realidade fria que conto agora.
O seu sorriso, esqueci. Não quero saber os seus mistérios, sinto que não deve nem ser nada, você não tem a graça que eu pensava que tinha.
Você? Você foi passageiro temporário, ilusão, loucura da minha cabeça que necessita sempre idealizar alguma coisa para suportar esta semana e a próxima e todos os outros dias. É mania minha de não saber viver comigo.
Vê como não te amo? Sonhei e muito com você, conjuntamente, não nego. Mas passou, não passou? Estou agora segura de mim, das minhas certezas - repito isso todos os dias ao acordar, faz parte do tratamento. Estou seguindo em frente. Acho que as coisas precisam andar novamente, o calendário está passando e, na bem da verdade, eu não amo você.
Não considere estranha a minha confissão. Parte do meu tratamento de Você exige uma coisa fundamental: que você diga que também não me ama. Porque se você me amar eu lembro logo do caminhão… E sem saber, eu paro logo embaixo dele. Não vá esquecer: eu não amo Você. Você sabe: repetir as coisas em voz alta faz parte do meu tratamento. Programação Neuroliguística.
Tudo isso é para ver se me convenço, se Te esqueço, se não Te amo.