Antes de mais nada: dê uma boa olhada nessa menina da foto.
E o freak show não para por aí não. Por alguma razão, meus dentes de leite demoraram muito tempo para cair. Tipo - muito tempo. Isso significa que, aos doze anos, enquanto minhas amiguinhas pré-adolescentes davam seus primeiros beijos, eu me encontrava - desculpa, deixa eu respirar fundo - banguela. Fiquei sem meus caninos por um bom tempo, porque além de demorarem a cair, eles também demoraram a crescer.
Você pode achar que isso é o suficiente para aniquilar a auto-estima de alguém, mas nããão. Senta aí e espera o resto. Ainda falta os cabelos crespos extremamente rebeldes, o corte chanel que me deixou parecendo um abajur, e nem vou comentar sobre o excesso de peso. Isso sem contar com os coleguinhas da escola, porque nada grita mais "me sacaneie" do que uma menina gorda e com um bicho morto na cabeleira exótica.
A coisa só foi melhorar depois dos meus dezoito anos, quando eu comecei a ficar mais jeitosinha. Antes disso, fui completamente invisível para os meninos.
Eu só era vista na hora de pedir cola, até porque, algum atributo eu tinha que ter, né? E ser esquisita por dezoito anos tem lá suas vantagens. Você põe a leitura em dia, conhece uma porção de autores, amplia seu leque musical, ouve bandas desconhecidas. Enfim, é ótimo.
Não sei como eu seria hoje se tivesse ido a todas aquelas festinhas iradas. Se tivesse sido objeto de desejo dos garotos do colégio. Se não fosse excluída dos grupinhos legais.
Não sei.
Talvez eu fosse uma pessoa mais bem resolvida, menos encanada com tantas bobagens, menos paranóica, obsessiva e complexada.
Não me sinto bonita na maior parte do tempo. Mas em vez de odiar cada uma das pessoas e dos eventos que contribuíram para isso, eu faço o oposto. Porque se não fosse por eles eu não seria eu. Minhas questões seriam outras e os caminhos teriam me levado a um outro lugar que não este em que me encontro.
E você, provavelmente, nunca teria me conhecido.

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